Na máquina de papel, a formação da folha é um processo sensível, dinâmico e altamente dependente de estabilidade mecânica. Pequenas variações podem comprometer qualidade, repetibilidade e eficiência global.
Neste case, um aumento nos níveis vibratórios revelou uma folga que poderia evoluir para fratura estrutural, dano à tela formadora e uma parada emergencial de grandes proporções.
Função crítica
O sacudidor (shaker/dandy) aplica movimento oscilatório lateral à tela na região da mesa formadora. Sua função vai além de simplesmente “vibrar” o sistema.
Ele é responsável por:
- Promover a dispersão das fibras ainda em suspensão fluida, desfazendo grumos;
- Melhorar a formação da folha;
- Influenciar a resistência à tração na direção transversal ao redistribuir a orientação das fibras;
Para essa função é necessário ajustar frequência e amplitude conforme gramatura, consistência e tipo de fibra da composição do papel produzido. Frequências inadequadas, folgas ou desgastes não apenas reduzem a eficiência do processo, podem piorar a formação.
“O impacto é na máquina toda, lembrando que cada máquina produz um determinado tipo de papel, o que pode provocar atraso nas entregas e perda de clientes”, explica explica Sérgio Morato, Gerente Técnico da SEMAPI.
O alerta
A detecção inicial ocorreu durante inspeção rotineira, quando foi observado aumento nos níveis vibratórios. A avaliação técnica da SEMAPI indicou a necessidade de substituição dos rolamentos do braço e verificação completa das folgas, a fim de restabelecer a estabilidade mecânica do sistema.
A folga já impactava diretamente o comportamento vibracional do equipamento, alterando sua dinâmica operacional e comprometendo a precisão da oscilação.
O que acontece quando há folga na haste do sacudidor?
A folga excessiva na junta da haste introduz um movimento parasita não controlado. Além da oscilação lateral programada, surge jogo axial e/ou angular.

O efeito em cascata é crítico:
- A amplitude real passa a diferir da amplitude nominal ajustada;
- O processo torna-se instável e de difícil repetibilidade;
- Surgem impactos intermitentes (backlash) na junta;
- Cargas de choque passam a atuar no mecanismo;
- O desgaste dos componentes articulados acelera exponencialmente;
- A transmissão de esforço deixa de ser limpa;
- A tela passa a receber impulsos assimétricos;
- Surgem variações de formação na direção transversal.
- No longo prazo, o cenário pode evoluir para:
- Ruptura da haste ou da junta com a máquina em operação;
- Dano à tela formadora (um dos itens de maior custo da mesa);
- Danos as réguas e aos foils/lâminas de drenagem;
- Parada não programada com impacto direto no OEE.
Existe ainda, mesmo que pequeno, risco de segurança em função de migração de peças para a área de operadores.
O risco evitado
Caso a falha evoluísse para corretiva emergencial, seria inevitável uma parada não programada. Os tempos médios poderiam variar entre:
- 6 a 8 horas para reparo do braço do sacudidor;
- Até 24 horas em caso de troca de tela e elementos de desaguamento.
O laudo estimava 6 horas de corretiva contra 4 horas planejadas. Porém, no pior cenário, a parada poderia se estender por pelo menos 12 horas adicionais.
Com produção média de 27 toneladas por hora, isso representa mais de 100 toneladas que deixariam de ser produzidas. A intervenção planejada evitou a parada da máquina.
O impacto financeiro potencial
Considerando apenas dois fatores principais: Tela formadora: custo estimado de R$ 350 mil; mais de 100 toneladas não produzidas. O impacto já seria expressivo.
Somam-se ainda:
- Geração de refugo por falhas na formação;
- Necessidade de investigação técnica para identificar causa raiz do refugo;
- Interrupção logística e risco de atraso na entrega ao cliente;
- Queda temporária de eficiência global (OEE).
A matéria-prima deixa de ser consumida imediatamente após a falha, mas o dano operacional já estaria consolidado.
O que este case demonstra
A folga não começou como um colapso estrutural. Começou como um aumento vibracional. Foi a análise preditiva que transformou um desvio mecânico em uma intervenção planejada.
Em sistemas de formação de papel, estabilidade mecânica é estabilidade de processo. E estabilidade de processo é estabilidade de resultado.
A manutenção preditiva, neste caso, não apenas evitou horas de parada, evitou instabilidade na formação, preservou consumíveis de alto custo e protegeu a performance global da máquina.




